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“Dou graças a Deus por ter vindo para a América”

Como o sonho de fazer “Queijo da Ilha de S. Jorge” nos Estados Unidos moldou a vida de um emigrante português no vale de Sonoma, na Califórnia.

Já tinha visto os queijos de Joe Matos à venda em lojas e supermercados em San José quando decidi fazer-me à estrada. Um anúncio num jornal local português deu-me a morada. Queijo da ilha de S. Jorge na Califórnia tinha de ter uma história por de trás. E tinha mesmo. A começar pela viagem por estreitas estradas rurais a norte de São Francisco.

A quinta ou rancho de Joe Matos fica em Santa Rosa, no vale de Sonoma – onde os californianos começaram a plantar vinha e a fazer vinho por volta de 1850 -, um pouco mais a oeste do vale de Napa, onde descobriram anos mais tarde que podiam produzir por ali bom vinho.

É preciso confiar no GPS para dar com o pequeno rancho de Joe Matos. A única indicação surge quando temos de deixar o asfalto e entrar por um apertado caminho de terra batida, entre cercas de arame farpado a delimitar campos verdes com vacas a pastar tranquilamente. Uns 200 metros antes do desvio, à beira da estrada, o portão de um outro rancho confirma que estamos a um mundo de distância do centro da cosmopolita e liberal São Francisco. O brasão diz tudo. Dois revólveres cruzados e a inscrição “We don”t dial 911” (Não ligamos para o 112). Mais adiante, uma pequena placa com uma seta para a esquerda anuncia a Joe Matos Cheese Factory.

É bem mais do que uma fábrica, este sítio. Aliás, basta ler as críticas no Yelp ou no TripAdvisor para perceber que o rancho de Joe Matos tem uma legião de fãs, quase todos americanos, em busca de autenticidade e história. E seria difícil conseguir um cenário mais rústico e autêntico. Estaciona-se no centro de um pequeno pátio de terra, abre-se a porta e o cheiro é a campo e animais, a vacas. Tinha chovido e havia muita lama no espaço que separa a fábrica do queijo dos estábulos, do celeiro onde se armazena o leite e de dois armazéns onde estão guardadas alfaias e embalagens para os queijos. Há gatos refastelados ao sol e patos a debicar o chão entre as vacas.

Joe Matos – o “José” que trouxe dos Açores em meados da década de 1960 ficou para trás – estava num recanto do pátio com uma das netas. Com 77 anos, Joe já vai entregando boa parte das tarefas às filhas e às netas. Não será garantia de que a fábrica tem futuro, confessa um pouco mais tarde a meio da conversa: “Sim, talvez o negócio continue, não sei”.

Chegou à Califórnia em 1965, com a quarta classe feita na ilha de S. Jorge, nos Açores e o serviço militar cumprido. Não veio para aqui para fugir à guerra, está visto. A explicação é simples e semelhante a tantas outras. “Casei-me, pedi dinheiro e vim para aqui porque a vida nos Açores era muito pobre”. Daquilo que se lembra, a vida na ilha naquela altura não lhe garantia futuro. “Havia dois ou três carros de praça em cada ilha, uma camioneta da carreira em S. Jorge que passava uma vez por dia…” O negócio corria-lhe nas veias. “O meu avô e o meu pai já produziam queijo de S. Jorge. Aqui nunca ninguém tinha experimentado fazer este queijo à moda dos Açores”.

Mas, não se pense que Joe e Mary – José e Maria, a sua esposa, tiveram um arranque de vida fácil na Califórnia. “Eu peguei em dinheiro para vir para esta nação. 1700 dólares, para pagar as passagens e cheguei aqui com 17 dólares. Se eu chegasse a Portugal com 17 dólares ia passar fome de miséria. Cheguei com 17 dólares, estava a dever 1700 e comecei logo a ordenhar vacas naquela noite. Cheguei de manhã e à noite já estava a trabalhar. E a minha mulher, passadas duas semanas, estava a trabalhar num aviário, lá no sítio onde matavam as galinhas”. Joe Matos lembra os primeiros tempos na América quase com nostalgia. Chegou com os tais 17 dólares no bolso, sem falar uma palavra de inglês, mas com ganas de trabalhar. “Naquele tempo havia muitos trabalhos. Podia ter começado a trabalhar em três ou quatro sítios só naquela estrada onde arranjei o primeiro emprego. E não falava uma palavra de inglês. Eu e o meu patrão parecíamos dois macacos. O gajo era italiano-suíço, nascido nesta terra, mas só falava inglês. Era tudo por acenos, por gestos, mas já tinha ordenhado vacas e lá nos íamos entendendo”. O negócio, o sonho da fábrica de queijo, demorou 14 anos a construir. Inaugurou-a em 1979, mas continuou empregado noutro ofício. “Trabalhei três anos e sete meses a ordenhar vacas e depois passei para uma fábrica de tijolo. Foi lá que fiz a minha vida. Trabalhava lá de noite e ordenhava as vacas aqui durante o dia. A minha mulher é que fazia o queijo, mas agora está doente e velha como eu”. Agora é Joe e as filhas que tratam de ordenhar as vacas e fazer o queijo.

A conversa foi correndo conforme íamos visitando a fábrica. A enorme tina de inox onde coalham o leite, as grandes rodelas de metal onde os queijos ganham forma e o armazém onde as rodas de queijo vão curando, envelhecendo. Recuando a 1965, Joe diz que para lá da língua só estranhou o ritmo de trabalho. “Isto aqui era mais “amarrado”. Naquele tempo ordenhava-se vacas sete dias por semana. Não havia descanso. Começávamos às duas da manhã, íamos para casa às oito e meia ou nove horas, descansávamos um bocadinho e depois, às duas da tarde, tínhamos de estar de volta ao banco até às oito ou nove horas da noite. Nos Açores não se trabalhava tanta hora”. Mas, o trabalho compensava. “Aqui ganhava mais. Naquele tempo era uma coisa boa mesmo para aqui. 350 dólares com casa, eletricidade e tudo. Era outro mundo. Logo ao fim de um mês de estar aqui, comprei um carro. Um carro novo! Brand novo… 2200 dólares! Naquele tempo era muito dinheiro, mas disse assim “não vou comprar um carro velho que pode parar aí no meio do caminho”. Era tudo muito diferente de Portugal. Íamos às compras e com 10 dólares trazíamos o carro cheio, dava para um mês. Não se comprava nada com notas de dólar, era tudo centavos”.

Joe conta que começou por fazer queijo como tinha aprendido na ilha, com o pai e o avô. “Ordenhava as vacas, fazia o queijo e ele ficava tal e qual ao de S. Jorge. Não havia diferença nenhuma”. A diferença veio com a pasteurização. “Houve aí uns problemas com um queijo que os mexicanos faziam, adoeceram muitas pessoas e nós tivemos de passar a fazer o heat treatment, e isso já tira um bocadinho do flavour, do sabor do queijo”. E houve outras tradições que o iam deixando na falência, como a teimosia de curar os queijos em prateleiras de madeira. “Custou-me, no início. Não me deixavam começar com isto porque tinha prateleiras de madeira. A minha sorte foi que o meu vizinho era italiano e tinha um gajo, italiano também, que era o cabeça aqui na Califórnia, dos inspetores do leite e dessas coisas”. Durante uns tempos, teve os inspetores do condado de Sonoma à perna. “Os gajos embirravam mesmo com as prateleiras em madeira, até que esse gajo veio aqui, chamado pelo meu vizinho, e disse-lhes “Eh pá, vocês não percebem nada disto. O queijo que vem de Itália, de França e dos Açores é todo assim, é curado na madeira, não precisa de inox”. O inspetor não ficou muito contente, mas lá assinou as licenças. Depois, passados uns dias, aparece-me aqui zangado e a perguntar “mas onde é que encontraste aquele tipo? Eu sou o inspetor para o condado de Sonoma, eu é que mando aqui, mas ele vem de Sacramento aqui mandar em mim?!” Ficou mesmo zangado comigo e dali a dois anos multou-me. 25 mil dólares, a ver se me fechava. Graças a Deus ainda aqui estamos”.

Depois, anos mais tarde, teve problemas com os açorianos de S. Jorge. Não queriam que usasse a designação “Queijo da Ilha de S. Jorge”, afinal o queijo estava a milhares de milhas de ser um produto da ilha. A resposta? “Disse-lhes que já usava este nome há muitos anos. Logo quando tirei as licenças, era para fazer queijo de S. Jorge. Ou seja, antes de eles trazerem para aqui queijo de S. Jorge feito nos Açores, já eu o fazia aqui. E eles não podiam fazer nada…” Joe Matos insiste que tem a lei e a história do lado dele. “Eu fui o primeiro gajo a fazer queijo de S. Jorge aqui na Califórnia. Houve outro em San José, mas aquilo não deu certo. Penso que para isto correr bem, para fazer queijo de S. Jorge, temos de ter aqui as vacas, ordenhá-las e ter o leite bem fresquinho, não se pode ir comprar o leite fora, o leite que os outros não querem…”

Joe nunca quis expandir demasiado o negócio. Tem 35 vacas e produz uma média de 14 queijos por dia. É quanto baste para ele e para a família alargada. “Vendo quase tudo às companhias americanas dos supermercados. Antigamente vendia mais aos portugueses, mas depois era um problema para receber o dinheiro. A minha filha mais velha é que quis começar a vender aos americanos, e ela é que tinha razão. Pagam a horas. Veem aqui, levam os queijos e pagam logo”. E o negócio tem corrido bem. Está, aliás, melhor que nunca. “Não tenho queijo que chegue para as encomendas”.

Aos 77 anos, já se cansou de recusar propostas para vender aqueles pedaços de terra. Dizem-lhe que valem uma fortuna, que são bons para plantar vinha. “Já me ofereceram dinheiro tolo por este lugar, mas eu não aceitei. Gosto de ter aqui as vacas. Quando morrer, os meus filhos logo vendem e aproveitam, mas eu estou muito bem aqui”. Joe Matos ainda conseguiu que as filhas falem português, as netas já não sabem uma palavra e os bisnetos vão pelo mesmo caminho. E reformar-se e voltar para Portugal? Nem quer ouvir falar nisso. “Nunca pensei em voltar. Cheguei a comprar lá uma casa, uma casa boa, mas depois vendi-a. Aqui temos melhores doctors, melhores coisas para a nossa idade. Já disse aos meus genros e aos meus netos que lhes dou dinheiro para reconstruírem uma casa velha que lá temos, que eles gostaram muito daquilo, mas voltar, não. São muitos anos. Já tenho o dobro da idade aqui”. Joe Matos confessa que gosta mais da Califórnia do que dos Açores, mas insiste que será “sempre português!” Já em fim de conversa, encostado ao balcão da pequena loja da fábrica, olhando para o infinito através de uns óculos meio embaciados, Joe deixa escapar uma frase: “Dou graças a Deus por ter vindo para a América”.

Joe Matos

› Nasceu em 1940 na ilha de S. Jorge, nos Açores. Filho e neto de produtores de queijo da ilha, José cumpriu o percurso normal de uma criança naqueles tempos, nos Açores. Estudou até à quarta classe e foi ajudar a família no campo. Ordenhou vacas e participou noutras tarefas do pequeno negócio familiar até que chegou a tropa. Cumprido o serviço militar – ainda antes da Guerra Colonial -, casou e decidiu emigrar para os Estados Unidos.

Chegou ao norte da Califórnia em 1965, trabalhou em quintas de produção de leite e numa fábrica de tijolos. Foi construíndo a fábrica de queijo em Santa Rosa ao ritmo da poupança e tem hoje um pequeno negócio familiar, mas bem-sucedido.

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