Home / Moçambique / Moçambique : Esquadras e bancos atacados e uma vila dividida a meio

Moçambique : Esquadras e bancos atacados e uma vila dividida a meio

Tiroteio em Mocímboa da Praia, no norte de Moçambique, resultou em pelo menos 16 mortos, dois dos quais agentes da polícia. Forças de segurança calcorreiam agora os vários bairros da vila à procura dos membros do grupo islâmico radical responsável pelo ataque.

A noite entrou calma, mas ao fim de algumas horas percebeu-se que o caos e a confusão estavam longe de ter terminado. Durante a madrugada desta sexta-feira, membros do grupo radical islâmico e agentes da polícia voltaram a envolver-se em confrontos na vila de Mocímboa da Praia, no norte de Moçambique. Em conferência de imprensa esta tarde, o porta-voz da polícia, Inácio Dina, confirmou a morte de 14 membros do grupo radical e dois agentes da polícia. No entanto, dados obtidos junto de fontes policiais dão conta de 18 mortos, dois dos quais polícias.

O primeiro susto deu-se na quinta-feira de madrugada, quando o grupo de radicais islâmicos, que o Expresso sabe pertencer a uma ramificação do grupo islâmico Al-Shabaab, com ligações à Somália e ao Quénia, atacou e ocupou parte da vila moçambicana, localizada a cerca de 350 quilómetros de Pemba, capital provincial de Cabo Delgado. Durante algumas horas, a vila esteve praticamente dividida ao meio: de um lado o grupo armado, e do outro as forças governamentais. O grupo, formado por jovens de Mocímboa da Praia, mas também dos distritos de Nangade, Palma e Chiure, atacou a esquadra da polícia local e assaltou balcões de bancos comerciais. Apesar de permaneceram “intactos”, os três balcões existentes na vila – Millenium Bim, BCI e Standard Bank – decidiram não abrir no dia seguinte, sexta-feira. Várias instituições do Estado foram imediatamente encerradas e a circulação sujeita a restrições. A segurança policial foi reforçada e ordenada uma perseguição aos cerca de 30 membros do grupo radical responsáveis pelos ataques.

Esta sexta-feira, e já depois de uma noite em que terão sido poucos aqueles que conseguiram descansar, devido aos tiros que se ouviram desde as 4h00 da madrugada até às 10h00 (menos uma hora em Lisboa), o ambiente está mais calmo. Regressar à vida normal, à vida das rotinas, é aquilo que todos pretendem agora, disseram ao Expresso testemunhas no local. As forças policiais continuam à procura dos autores dos ataques, calcorreando os diferentes bairros da vila em busca de sinais e pistas, com a ajuda dos chamados secretários dos bairros, fundamentais para identificar os jovens envolvidos nos ataques. Segundo o jornal moçambicano “Ntatenda”, foram enviados para a região vários membros da Unidade de Intervenção Rápida – uma força especial a que se recorre em situações específicas – com o objetivo de restabelecer a ordem. A “Folha de Maputo” fala em 15 pessoas detidas, sobre as quais recaem suspeitas de envolvimento nos ataques.

Sobre os jovens do grupo islâmico radical sabe-se já também que receberam treino militar (não se sabe ao certo onde, mas pensa-se que no território da Tanzânia) após a detenção, em julho deste ano, de quatro líderes do grupo pelas forças policiais de Mocímboa da Praia. Dos quatro detidos, três eram moçambicanos e o outro era de nacionalidade tanzaniana. “Este grupo existe aqui há poucos anos. Foi trazido da Tanzânia. Protagonizava desacatos e, por isso, alguns dos seus membros foram presos. Após a prisão dos seus líderes, os seus membros começaram a treinar e a aprender a manejar e a disparar armas”, contou um jornalista de uma rádio comunitária local ao Expresso. Segundo este jornalista, o ataque iniciado na quinta-feira visava não apenas roubar as armas da polícia, mas, acima de tudo, libertar os seus líderes da prisão. “Eles não atacam a população, atacam polícias. Os seus alvos são esquadras”, disse a mesma fonte.

Segundo o “Jornal de Notícias” (JN), o grupo atacou três esquadras da polícia em Mocímboa da Praia, onde baleou mortalmente dois agentes e apoderou-se de oito mil munições e um número não especificado de armas. Os ataques ocorreram no Comando Distrital da corporação na vila da Mocímboa da Praia, no Posto de Controlo e na 2ª Companhia de Protecção dos Recursos Naturais, localizados na região de Oasse. O mesmo jornal refere que 13 atacantes foram abatidos pela polícia, dois dos quais no momento da investida, e outros 11 durante a perseguição que se seguiu ao longo das matas da região, movida por equipas da Unidade de Intervenção Rápida.

Na quinta-feira, acrescenta o JN, duas colunas de viaturas, transportando elementos de Unidade de Intervenção Rápida e da Guarda do Comandante Provincial da Polícia da República de Moçambique, em Cabo Delgado, caíram numa emboscada, na região de Manilha (a cerca de cinco quilómetros da sede do distrito de Mocímboa), que se presume tenha sido montada pelo mesmo grupo que atacou as três unidades policiais.

...
.