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Um nu, uma performance, uma criança: o Brasil das redes sociais em polvorosa

O vídeo de uma criança e sua mãe a tocarem o corpo de um artista nu, numa performance no Museu de Arte Moderna de São Paulo, causou escândalo. A direita radical e os sectores evangélicos falam em crime, o museu de “manifestações de ódio e de intimidação à liberdade de expressão”.

A criança, de cerca de quatro anos, acompanhada pela mãe, aproxima-se do artista, cujo corpo nu está deitado no chão da sala. Ele, Wagner Schwartz, protagoniza a performance La Bête, inspirada em Bicho, de Lygia Clark, referência da arte contemporânea brasileira, falecida em 1988. Estávamos na inauguração da Mostra Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, na última terça-feira.

A mãe é a performer e coreógrafa Elisabeth Finger, uma das convidadas da inauguração. Mãe e filha aproximam-se do artista, tocam-lhe num dos braços, nos pés e na canela. Um vídeo divulgado online pôs as redes sociais brasileiras em polvorosa. Movimentos à direita no espectro político e figuras dos sectores evangélicos referiram-se ao sucedido como crime e uma ameaça à família tradicional brasileira e tornaram a hashtag #PedofiliaNaoEArte um dos mais comentados esta sexta-feira no país.

Em nota enviada à imprensa na noite de quinta-feira, o MAM defendeu-se das vozes que se indignaram com o vídeo. “A sala estava devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística, seguindo o procedimento regularmente adoptado pela instituição de informar os visitantes quanto a temas sensíveis. O trabalho apresentado na ocasião não tem conteúdo erótico”, escreveram os representantes da instituição. “O material apresentado nas plataformas digitais não apresenta este contexto e não informa que a criança que aparece no vídeo estava acompanhada e supervisionada por sua mãe”, acrescentam.

O comunicado surgiu depois de vozes como as de Jair Bolsonaro, deputado federal pelo Rio do Janeiro, polémico pelas declarações racistas, homofóbicas e misóginas proferidas ao longo dos anos, ter utilizado a sua conta de Twitter para apelidar os responsáveis pelo sucedido de “canalhas, mil vezes canalhas”: “cenas que revoltam… uma criança é estimulada a tocar homem nu ‘em nome da cultura’”, escreveu.

A revolta online, activa principalmente entre os grupos evangélicos e organizações associadas à direita brasileira, como o Movimento Brasil Livre, formado por jovens conservadores radicais – “Já estão utilizando eventos de cunho cultural para erotizarem crianças, o próximo passo será qual? Criarão políticas públicas para induzirem a erotização infantil também?”, lia-se no Twitter do movimento -, extravasou as redes sociais e provocou uma manifestação de algumas dezenas de pessoas frente ao MAM, bem como a acção do Ministério Público do Estado de São Paulo, que anunciou sexta-feira a abertura de um inquérito civil para investigar denúncias sobre a performance, noticia o jornal O Globo.

O MAM voltou a abordar o tema no mesmo dia, afirmando que a polémica em volta da performance era “resultado de desinformação, deturpação do contexto e do significado da obra” e classificando a reacção nas redes sociais como “manifestações de ódio e de intimidação à liberdade de expressão”.

A polémica surge depois de, dia 10 de Setembro, a mostra Queermuseu, patente no Santander Cultural, em Porto Alegre, ter sido encerrada após o protesto por parte dos mesmos sectores que agora se insurgem contra a performance no Rio de Janeiro. O Movimento Brasil Livre acusava a exposição, que contava com trabalhos de Bia Leite, Adriana Verajão ou da mesma Lygia Clark que inspirou La Bête, de albergar obras que faziam a apologia da pedofilia e zoofilia

Esta quinta-feira, o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul recomendou ao Santander a reabertura imediata da exposição e a sua manutenção até à data prevista de encerramento, a 8 de Outubro. O Santander reafirmou no dia seguinte que esta não seria reaberta.

Fabiano de Moraes, procurador geral dos Direitos do Cidadão, escreveu no documento em que recomendava a reabertura da exposição que “o fechamento de uma exposição artística causa um efeito deletério a toda a liberdade de expressão artística, trazendo à memória situações perigosas da história da Humanidade como as envolvendo a ‘Arte Degenerada’, com a destruição de obras na Alemanha durante o período de governo nazi”. Negou igualmente o fundamento dos críticos da mostra: “As obras que trouxeram maior revolta em postagens nas redes sociais não têm qualquer apologia ou incentivo à pedofilia.”

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